A seguir segue o artigo de Rubens Marchioni, publicado no livro "Criatividade e Redação" pela Edições Loyola, que, à propósito, indico para leitura. O artigo é fantástico, fala com leveza que para sermos criativos temos que estar preparados para receber a criatividade. O autor inicia o texto com uma referência ao pensamento de Wendell Holmes:
"A mente humana, uma vez ampliada por uma nova ideia,
nunca mais volta ao seu tamanho original"
Criatividade é a arte de pensar de maneira diferente para encontrar caminhos in-esperados.
A escultura da ideia está escondida dentro da pedra de nossas experiências. Caprichosa, só se revela se o candidato a artista acreditar que ela existe e aventurar-se rocha adentro, tirando com afinco os excessos e fazendo a obra, enfim, aparecer.
Embora esperada, a ideia original sempre aparece quando menos imaginamos. Mesmo sabendo que ela vem, não a recebemos sem um certo gosto de surpresa e espanto. Já que é assim, melhor preparar-se. Mais do que isso, é bom ter a consciência de que nossa mente, uma vez ampliada por uma ideia, não será a mesma. Quando desenvolvemos a criatividade, pouco a pouco nos tornamos pessoas diferentes. Quem nos vê percebe a mudança. Pensamentos, palavras, ações, tudo revela que estamos voltando da experiência de um momento, como quem regressa de um encontro com a divindade.
A experiência já provou que remendo novo em tecido velho não dá certo - o próprio Filho de Deus faz referência a essa realidade. Portanto, se a mente não estiver pronta para receber a criatividade, não poderá enxergá-la. E, ainda que o faça, terá dificuldade para suportar o novo, eliminando-o como se faz com as coisas improváveis e sem futuro.
Em casa, na empresa ou na escola, gerar resultados pode depender somente de saber usar a criatividade - só com ela somos capazes de encontrar soluções que os meios convencionais não conseguiram oferecer e de recebê-las adequadamente quando surgirem.
Olhando para o passado, vemos na história um desfile de pessoas e empresas notáveis que se descuidaram disso. A miopia lhe custou um bocado caro, privando-os de boas experiências de sucesso. Veja alguns exemplos:
Em 1878, Jean Boillaud, da Academia Francesa de Ciências, olhou com descaso para o fonólogo de Thomas Edison e disse: "É totalmente impossível que os nobres órgãos da fala humana sejam substituídos por um insensível e ignóbil metal".
Direto da Universidade de Oxford, pelos idos de 1879, Erasmus Wilson fez uma afirmação pouco brilhante: "Quando a Exposição de Paris se encerrar, ninguém mais ouvirá falar em luz elétrica".
Falando do próprio invento, Auguste Lumière mostrou quão limitada era sua visão de futuro: "O cinema será encarado por algum tempo como uma curiosidade científica, mas não tem futuro comercial".
Era março de 1956 quando, ao demonstrar sua descrença no rock, a famosa revista Variety previu: "Até julho sai de moda".
Da revista American Cinematographer veio esta previsão em 1900: "O cinema sonoro é uma novidade que durará uma temporada".
A The New York Times, em 1939, arriscou e não acertou: "A televisão não dará certo. As pessoas terão de ficar olhando sua tela, e a familia americana média não tem tempor para isso". E o presidente do estúdio de cinema 20th Century Fox, em 1946, concordava: "A televisão não será capaz de manter nenhum mercado que conseguir após os primeiros seis meses. As pessoas se cansarão de olhar para uma caixa de madeira compensada toda noite.
Para terminar, uma afirmação para pensar: "Quem disser que um dia as ruas estarão coalhadas de carruagens sem cavalos deve ser internado num asilo de loucos".
Se aceitarmos o desafio de descobrir novas ideias, é também por acreditarmos que, transformadas em ações, elas governam o mundo. Comungamos com o pensamento do Tupac Amaru José Gabriel Condorcanqui. Ao perceber a força de uma ideia, não fez cerimônia e disparou uma certeza tão simples quanto verdadeira: "Não há calibre que mate uma ideia". No máximo, ela pode ser silenciada - os sistemas ditatoriais que o digam. Mas nem por isso deixará de existir ou perderá sua força revolucionária. Tal qual o sol, que não deixa de existir apenas porque uma nuvem teimosa insiste em passar na sua frente. E, já que falamos nisso, as nuvens são passageiras, enquanto o sol atravessa milênios.
(Fonte: MARCHIONI, Rubens. Criatividade e Redação. O que é, como se faz. Edições Loyola. 2004)